Nos
últimos artigos temos seguido os rastros de uma entidade maligna e
etérea que chamamos de Gênio
do Mal,
cujo objetivo é contaminar, bloquear e prender nossos corações
para que percamos nossa humanidade e sejamos usados por ele como
gado. Também temos visto que os propósitos do Gênio do Mal para
nós enquanto gado-humano podem ser resumidos em três usos básicos:
- Alimento/Matéria-prima;
- Força de Trabalho; e
- Sacrifício
Já
analisamos o que significa sermos usados como alimento e
matéria-prima, e hoje discutiremos como e porque somos reduzidos a
mera força
de trabalho,
ferramentas, objetos produtivos, escravos semi-humanos para o Gênio
do Mal.
Entretanto, caso você ainda não tenha lido os
textos anteriores, sugiro que faça isso agora, antes de prosseguir,
pois estamos seguindo uma linha de raciocínio e utilizando uma série
de analogias e parábolas que podem não ser bem compreendidas sem a
base precedente. Para facilitar, disponibilizo os links das postagens
imediatamente anteriores a esta:
Definitivamente,
usar o gado-humano como força de trabalho é um dos objetivos mais
óbvios e declarados do Gênio do Mal. Com certeza isso é claro para
você, pois a maioria de nós temos sofrido, em maior ou menor grau,
com o sentimento de escravidão advindo de nossas cargas horárias
exageradas e exigências profissionais irracionais e desumanas.
Porém, o que me deixa mais assombrado é notar que, apesar desse
propósito ser o mais explícito e mais claramente sentido pela
população em geral, também é o mais aceito e propagado por nós.
Nossa
identidade enquanto indivíduos parece estar profundamente enraizada
em nossos conceitos de trabalho e produção.
E, ao mesmo tempo que isso nos incomoda diariamente, nos conformamos
e naturalizamos essa concepção. Com efeito, você realmente crê
que é natural e necessário trabalhar oito horas por dia, seis dias
por semana, onze meses por ano? Você realmente crê que quando seu
expediente termina, o serviço fica no local de trabalho e você como
indivíduo não continua sofrendo as consequências dele em casa? De
fato, você consegue ter sua carreira como uma pequeníssima parcela
de sua identidade, ou sua identidade é restrita meramente a sua
profissão? Por que será que, quando falamos em “nossos direitos”,
quase sempre isso se refere a direitos trabalhistas?
Abra
os olhos um pouco mais e verá que a liberdade que nos é proposta é
bem diferente do que imaginamos. Somos sim livres, mas também somos
induzidos a usar nossa liberdade para escolher sermos escravizados de
boa vontade. Somos
escravos-livres.
E o que tem nos escravizado não são nossos trabalhos/empregos, mas
a cosmovisão moldada em nós. Somos
“educados” a nos auto-escravizar.
Os
antigos Hebreus possuíam uma lei que obrigava os donos de escravos a
libertar seus serviçais no chamado “Ano
do Jubileu”.
Entretanto, caso o escravo gostasse muito de seu senhor e quisesse
continuar em tal estado por considerar vantajoso de alguma forma,
deveria realizar um ritual público no qual sua orelha seria furada
para demonstrar que escolhia de livre e espontânea vontade continuar
como escravo para sempre. Pois bem... A
pseudo-educação tem sido utilizada para nos convencer a “furar
nossas orelhas”
para sermos escravos por livre escolha por toda a nossa vida.
Somos felizes bois de canga por toda a vida, até o dia
em que nos aposentamos e morremos, tendo nossa carne comida pela
depressão e pelo desânimo. E por que essa depressão vem? Porque
nossa identidade foi tão intrinsecamente unida a nossa capacidade de
trabalho que, ao nos aposentarmos, perdemos nossa única identidade,
nosso senso de valor e nosso propósito de existência. Algumas
poucas pessoas conseguem, pela necessidade, quebrar esse feitiço
mental e utilizam seus anos de aposentadoria para cativar
verdadeiramente seus corações que foram enterrados pelos anos de
trabalho; outras até conseguem se distrair com atividades que as
fazem esquecer do vazio de suas almas; mas a maioria simplesmente
morre sem nunca ter sentido o que é ter valor simplesmente por quem
é.
A
pseudo-educação maligna tem sido extremamente eficaz ao nos
convencer de que fomos criados para trabalhar, trabalhar, trabalhar e
morrer quando não pudermos mais ser úteis.
Para
constatarmos isso não são necessárias análises complexas, nem
mesmo raciocínios profundos. Basta uma frase: “Você
tem que estudar para ser 'alguém' na vida”.
É desnecessário tentar convencer qualquer um que “ser 'alguém'
na vida” significa ter um bom emprego e ganhar bem...
Toda a nossa lógica existencial gira ao redor do
trabalho. A maioria de nós, simplesmente, vive para trabalhar e nada
mais. E como uma parte funcional do corpo do Gênio do Mal (cf.
último artigo), treinamos nossos filhos a fazer o mesmo.
Preste bastante atenção e analise se isso é real ou
não nas desculpas que, geralmente, damos às crianças quando
questionados sobre algum comportamento nosso ou sobre alguma
exigência que colocamos sobre elas:
- “Mas o papai precisa trabalhar...”
- “Se eu não for, quem vai trazer comida pra dentro de casa?”
- “Eu trabalho pra te dar o que eu não tive!”
- “Do que você está reclamando? Eu me mato para não deixar faltar nada em casa!”
- “Eu trabalho o dia inteiro e não posso ter sossego quando chego em casa?”
- “Você tem que estudar para não ter que trabalhar tanto quanto o seu pai.”
- “O papai está muito cansado do trabalho... Outra hora a gente brinca.”
- “Se você não fizer faculdade, vai trabalhar com o quê?”
- “Você acha que vai ganhar dinheiro desenhando/pintando/cantando/dançando?”
- “Eu me matei trabalhando e você vai jogar isso fora desistindo da faculdade?”
O que todas essas frases têm em comum? Creio que já se
tornou óbvio.
Poderíamos
gastar páginas e mais páginas descrevendo todas as desculpas que
damos dia a dia para nossos filhos para chegar à mesma conclusão. E
essa conclusão é que, se
tirarmos o trabalho de nossas vidas, não sobra muita coisa...
Pense
nisso agora mesmo: se você não trabalhasse mais, o que seria da sua
vida? E não me refiro somente aos “empregos”, mas ao trabalho
como um todo – em casa, na vizinhança, na igreja, no clube, etc...
Tirando todas as suas obrigações, tarefas e trabalhos, o que
sobraria? O que te motivaria? O que você faria todos os dias? Sobre
o que conversaria? E, talvez, a pergunta mais importante: QUEM
SERIA VOCÊ? O
que você pensaria sobre si mesmo? Que identidade você tem fora do
emprego/trabalho? Quem você é além de ser vendedor, médico,
pedreiro, secretária, professora, etc.?
O
Gênio do Mal tem atacado nossa identidade, reduzindo ela a algo
funcional, produtivo, trabalhista. Ele não quer saber quem somos,
mas o que podemos fazer. Para ele não somos pessoas, mas números,
estatísticas. Na realidade, ele tem medo de descobrirmos quem somos,
nossa verdadeira identidade. Ele sabe que homens
e mulheres com coração e identidade são perigosos.
Por isso, seus esforços são para esmagar nossos corações e
confundir, diluir e minimizar nossas identidades. E, sem perceber,
fazemos exatamente o mesmo com nossas crianças...
Através
dos pais, escola, sociedade, etc., a pseudo-educação, desde cedo,
encuca em nossos filhos que o valor de alguém não reside em sua
existência, em seu coração ou em sua humanidade, mas em sua
produtividade e progresso funcional.
Os educandos são forçados em um molde estreito no qual devem se
organizar para progredir – isso não lembra algo em uma bandeira?
Nesse
processo de objetivação
do sujeito,
um resultado insatisfatório em trabalhos, tarefas, projetos e provas
é recebido com repreensões, acusações, rejeições e castigos que
imprimem no coração infantil a mensagem: “Sejas
produtivo ou não terás valor”.
E, assim, nossos filhos estão sendo preparados, ou melhor, domados
para serem uma boa força de trabalho. Afinal, “eles
têm que aprender a lidar com isso porque, um dia, terão que
enfrentar esse tipo de situação em um emprego”,
não é verdade? Novamente, o trabalho é a desculpa para a dor
emocional causada pela suposta educação...
A visão que recebemos e passamos adiante é essa:
Somos
vistos como ferramentas: um prego sem ponta, um machado sem fio, uma
serra sem dentes, um martelo flexível, uma chave torta ou uma régua
fora de padrão não servem para nada. Assim somos vistos quando não
alcançamos o padrão educacional estabelecido para a vida
profissional: não
servimos para nada.
Como
se sente uma criança que percebe que seus gostos, seus dons, suas
habilidades, suas tendências não são aplicáveis
profissionalmente? Sentem-se incompetentes, burras, atrasadas, fora
do padrão, uma falha, um erro, esquisitas, estranhas, relegadas a um
canto escuro, destinadas a serem pobres e marginalizadas, rejeitadas
por não terem o que é preciso para serem “um
sucesso”.
E
não posso deixar de dizer que isso não é culpa exclusiva do
pensamento capitalista, como muitos de nós fomos treinados a pensar
e vários de vocês já devem ter pensado até aqui. Como uma das
prerrogativas do capitalismo é o acúmulo de bens através da
produção, e esta produção ocorre fundamentalmente pelo uso da
força de trabalho, não há como negar a ligação com o que viemos
discutindo até o momento. Todavia, os marxistas que me desculpem,
mas Karl
Marx
é responsável pelo alastramento desse pensamento mais do que
qualquer capitalista.
Sei que estou entrando numa baita briga ao falar isso, mas é o que
posso averiguar ao analisar o seu materialismo
histórico dialético
– principal vertente filosófica que influencia a educação
escolar, em especial, no Brasil. Não me entendam mal: reconheço as
contribuições de Marx para várias discussões, entretanto, sua
visão da realidade baseada principalmente no que é material e, em
especial, sua divisão da história a partir dos meios de produção
demonstram explicitamente sua concepção de que a humanidade está
diretamente ligada a sua capacidade de trabalho e produção. Caso eu
esteja louco ao analisar Marx dessa forma, alguém me corrija, mas
creio não estar equivocado.
Passei
quatro anos “estudando
para ser pedagogo”,
e o que mais apresentaram a mim foram as concepções de Marx. Minha
formação acadêmica teve Marx do início ao fim. Dessa forma, a
menos que todos os meus professores tenham ensinado algo totalmente
diferente da realidade, o marxismo encucado na maioria esmagadora dos
educadores brasileiros dá conta de que o ser humano é uma força
social, histórica e de trabalho. O próprio pensamento comunista,
que se diz tão diferente do capitalista, não tem nada de diferente
quanto ao valor do ser humano como força de trabalho. A diferença é
que, no modelo comunista, o indivíduo não trabalha mais para si só,
mas, teoricamente, para a sociedade como um todo. Mais uma vez, me
desculpem os marxistas, mas essa ideia me parece diminuir ainda mais
o valor do indivíduo como tal, uma vez que ele é visto como uma
“engrenagem” que serve para a máquina social funcionar.
Enfim...
não estou aqui para debater sobre concepções filosóficas
específicas, mas para denunciar os desígnios malignos da Gênio do
Mal. E, neste sentido, tanto
o marxismo quanto o capitalismo – ou qualquer outra concepção que
determine o valor humano baseado em seu potencial de trabalho – são
ferramentas do Gênio do Mal para nos escravizar de bom grado.
Também
não estou aqui defendendo um ócio generalizado em que ninguém mais
trabalhe, ou que não se apresentem elementos profissionais durante o
processo educativo. O trabalho é sim importante, mas não por si só.
O
trabalho deve ser uma extensão natural das atividade de um sujeito
que tem sua identidade bem formada e age baseado no valor que dá a
si mesmo, seus interesses, habilidades, valores, etc.
Neste sentido, não devemos educar para o
trabalho, mas devemos educar para a vida; não devemos desejar o
progresso da criança em competências meramente profissionais, mas
devemos almejar o desenvolvimento integral da criança, sempre
valorizando o autoconhecimento e a busca pela identidade pessoal; não
devemos formar um profissional, mas cultivar um coração.

PARA
AMPLIAR SUA VISÃO E NOSSAS DISCUSSÕES, SUGIRO QUE ASSISTA AO VÍDEO
“EDUCAÇÃO PROIBIDA”, QUE DEIXO ABAIXO: