segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Um Lar Aprendiz

No artigo “(Re)Educando os Pais em Casa” tratamos da necessidade dos pais se desescolarizarem para que o processo de Educação Domiciliar seja possível e produtivo em sua plenitude. Durante o texto, em certo ponto, comentei o seguinte: “Não tentem mimetizar em suas casas o ambiente escolar. Ao invés disso, construam em seus lares um ambiente de aprendizagem”. E, neste artigo, vamos tratar justamente desse tema: o que é um “ambiente de aprendizagem”? E como podemos construir um em nossos lares?
Em primeiro lugar, preciso avisar que poderá ser bastante difícil compreender plenamente o funcionamento de um ambiente de aprendizagem, uma vez que fomos instruídos, justamente, em instituições escolares que, em sua maioria, são organizadas na contramão da aprendizagem natural. Com certeza, enquanto você estiver lendo este artigo, inúmeras dúvidas poderão surgir. Porém, mais do que as dúvidas, o que será mais comum a todos, ao meu ver, será um sentimento de insegurança quanto ao que estará sendo proposto aqui. Essa insegurança vem, não porque a proposta em si possui falhas, mas porque estaremos sendo estimulados a sair de nossa “zona de conforto”. Criar um ambiente de aprendizagem em nossos lares implica em abandonarmos a segurança e rotina de uma educação artificial cinzenta para explorarmos de forma livre e desprotegida os vários caminhos da coloridíssima educação natural. E quando digo “desprotegida”, não quero dizer “perigosa”, mas sim: uma educação que não possui as paredes e correntes impostas para nos impedir de aprender mais do que deveríamos.
Dito isso, passemos a algumas respostas às perguntas que devem estar pairando sobre sua cabeça...
Quando me refiro a um “ambiente de aprendizagem”, não estou tratando meramente de um local físico onde ocorre algum tipo de aprendizagem... De fato, as crianças estão aprendendo o tempo todo e, neste sentido, qualquer ambiente é um ambiente de aprendizagem. Mas, gostaria de extrapolar o sentido básico dessa expressão e utilizá-la como uma referência à construção de uma rotina quotidiana na qual o processo de ensino-aprendizagem intencional é constante e perpassa múltiplas atividades familiares.
Isso quer dizer que, no dia-a-dia, a família toda está envolvida em atividades que, de uma forma ou outra, estimulam ou proporcionam o ensino e o aprendizado de algum tipo de conhecimento e/ou a aquisição de alguma habilidade/competência.
Um lar que possui essa característica – de aproveitar ao máximo o potencial educativo das atividades quotidianas – se converte em um ambiente de aprendizagem que poderíamos chamar de lar aprendiz. “Lar” porque não nos referimos à estrutura física que chamamos de casa, moradia, mas ao ambiente de convívio da família; e “aprendiz” porque, como veremos em breve, todos os membros constituintes do lar estão constantemente envolvidos no processo de aprender.
Em um lar aprendiz, não é somente o filho (aluno domiciliar) que estuda, pesquisa e aprende. Ele é apenas “um dos”. Talvez seja o mais inexperiente, ou o que necessita de mais instrução – talvez... e apenas talvez... Mas, definitivamente, não é o único aprendiz. Em um lar aprendiz, todos os membros da família são aprendizes e, em níveis diferentes, estão constantemente aprendendo.
Quando tratamos de Educação Domiciliar, sempre falamos sobre “filhos-alunos” (ou: “alunos domiciliares”) e “pais-mestres” (ou: “professores domiciliares”). Entretanto, na mesma medida, deveríamos falar sobre o “lar aprendiz” – afinal, a construção desse tipo de ambiente é MUITO mais importante para o sucesso da Educação Domiciliar do que o material didático utilizado ou a capacitação dos pais. Ao transformar sua casa em um lar aprendiz, você está fazendo com que sua família pratique a aprendizagem como um processo tão necessário e natural quanto se alimentar ou realizar higiene pessoal.
Como é de conhecimento de todos, para que uma criança aprenda a falar basta estar em um ambiente que fala – ou seja, com sujeitos que utilizem a habilidade de falar e o incentivem a fazer o mesmo. Para que uma criança aprenda a andar, basta estar em um ambiente que anda. Da mesma forma, para se tornar um verdadeiro homo sapiens – humano que sabe/aprende – , a criança só precisa estar em um ambiente em que se aprende, e ser estimulada a isso.
Utilizar uma material didático de qualidade e receber apoio pedagógico, com certeza, são fatores que facilitam muito o processo de Educação Domiciliar. Entretanto, criar um ambiente de aprendizagem em seu lar faz com que essas coisas se tornem secundárias. O (necessário) momento oficial de estudos se torna apenas “um” dos momentos de aprendizado, pois o conhecimento é o bem de troca mais utilizado por uma família moradora de um lar aprendiz.
Se você me permite sugerir uma proposição para os próximos meses, é a seguinte: transforme sua casa em um ambiente de aprendizagem, em um lar aprendiz.
Mas, como você pode fazer isso?
Em primeiro lugar, se ainda não fez, comece a se desescolarizar... Deixe de pensar que a qualidade do aprendizado depende do volume de informações, ou que “preparar para a vida” é enfiar a mais variada gama de assuntos na cabeça... Busque ter prazer em aprender.
Isso parece loucura? Pois não é... Isso pode ser chocante, mas você gosta de aprender e não sabe! Deixe-me provar... Responda a essas perguntas:


  1. Você gosta de ler jornal e/ou revistas?


  1. Você gosta de ficar “fuçando” na internet?


  1. Você gosta de “fofocas”, saber o que acontece com artistas e outras figuras públicas?


  1. Você discute/argumenta sobre esportes, política, negócios, etc.?


  1. Você gosta de ouvir/ler histórias (reais ou fictícias)?


Se sua resposta foi afirmativa para, pelo menos, uma dessas perguntas, alegro-me em lhe informar que você gosta de aprender. O que acontece é que todos nós fomos forçados a aprender coisas que não faziam sentido nem nos interessavam e, por isso, tendemos a ter repulsa pela ideia de estudar, pesquisar ou, meramente, aprender.
Apesar de nossa resistência natural à ideia de aprender, o desejo de conhecer e nos desenvolver é natural e está dentro de nós – em alguns está mais escondido do que em outros, mas está em todos. Sendo assim, para construir um lar aprendiz, você precisa começar liberando esse prazer natural pela aprendizagem que vem sendo suprimido através dos anos. Não tenha medo de aprender... APRENDA!!!
Modifique sua rotina para que possa ter um tempo de aprendizado pessoal todos os dias. Ao mesmo tempo, se organize para ter um tempo de aprendizado coletivo – com todos os demais membros de sua família. Ambos os momentos poderão ser dedicados a:


  • Pesquisar sobre algum assunto;
  • Ler algum livro ou texto;
  • Debater sobre algum tema;
  • Assistir a um documentário ou filme educativo;
  • Etc.


O conteúdo utilizado como “matéria-prima” desses momentos não precisa ser, necessariamente, acadêmico e/ou científico, mas pode ser:


  • Religioso/Espiritual;
  • Filosófico/Ideológico;
  • Político;
  • Moral/Ético;
  • Profissional;
  • Quotidiano;
  • Etc.


O importante é que haja estudo, pesquisa, debate, divulgação... Enfim: ensino e aprendizagem.
Também sugiro que você separe um pouco de seu orçamento mensal para comprar livros, revistas, vídeos e qualquer outro material que possa ser instrutivo para você e sua família. Comece comprando materiais que tratam de coisas que despertem interesse genuíno e, posteriormente, você notará que seu interesse por outros assuntos relacionados irá aumentar exponencialmente.
Quando você tiver alguma dúvida sobre uma notícia no jornal, quando ouvir uma palavra nova, ouvir falar de algum personagem que não conhece, não fique parado... Pesquise mais sobre isso! Não seja preguiçoso, mas seja curioso!
Por mais inútil que possa parecer uma informação, o simples fato de você ir atrás de mais conhecimento irá estimular sua curiosidade natural e seu prazer em aprender.
Vivemos em uma era em que a informação está extremamente acessível de diversas formas, em diferentes linguagens para que qualquer um possa acessá-la. Não há justificativa para ficarmos inertes e não aprendermos mais – mesmo que seja, inicialmente, em “doses homeopáticas”.
Se vocês, enquanto pais, forem seres pesquisadores, aprendizes reais, não será necessário um esforço tão grande para que seus filhos também o sejam. Estar em um ambiente de aprendizagem é mais do que o suficiente para que as crianças se tornem seres que aprendem naturalmente – e o exemplo dos pais é determinante nesse processo.
Para finalizar, volto a exortar todos vocês: desescolarizem-se e se tornem verdadeiros aprendizes naturais. Isso será maravilhoso para vocês, e determinará o sucesso da Educação Domiciliar de seus filhos.
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