segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

(Re)Educando os Pais em Casa

Em geral, quando uma família escolhe tirar seus filhos da escola e ensiná-los em casa, os pais tendem a se preocupar bastante com as dificuldades que haverão para que o “aluno escolar” se transforme em um “aluno domiciliar”. Muitas vezes, receamos que será difícil para a criança se desligar do modelo institucional de instrução e se adaptar à rotina da Educação Domiciliar. Entretanto, tenho que afirmar que esse temor é um tanto exagerado e, em sua essência, focaliza o sujeito errado. Explico: a criança e o adolescente são seres muito maleáveis e adaptáveis. Por mais que possam haver algumas dificuldades e empecilhos no começo, rapidamente os educandos se adaptarão totalmente à realidade de um aprendizado no lar. Por outro lado, quem realmente pode ter dificuldades para se desescolarizar são os próprios pais.
A “desescolarização” pode ser entendida por muitos como um movimento, uma ideologia/filosofia ou, até, como um método educacional. Entretanto, neste artigo uso essa palavra como “o processo pelo qual alguém se desliga do modelo escolar de educação com o fim de aplicar algum tipo de substituto a ele”. Neste sentido, pode ocorrer dos próprios pais terem dificuldade para abandonar a “forma escolar” quando passam a instruir seus filhos em casa.
Como isso pode se manifestar? De várias formas... Uma das mais comuns é o que chamo de “Síndrome do Pavor Curricular Súbito”. Apesar desse nome, não me refiro a uma patologia, mas a um comportamento que já vi repetir-se diversas vezes em pais que decidem aplicar a educação domiciliar: em um primeiro momento, os pais sentem-se fortemente impelidos a ensinar seus filhos em casa e, num rompante de convicção, tiram as crianças da escola. Entretanto, quando as coisas começam a “esfriar” e os progenitores começam a pensar no “como” ensinar em casa, subitamente são inundados por um profundo medo de não conseguirem dar conta de transmitir a seus filhos todo o conteúdo curricular apresentado pelas instituições escolares. Esse grande medo de não suprir as necessidades informativas dos filhos é o que chamo de Síndrome do Pavor Curricular Súbito.
Alguns dos pensamentos que podem acompanhar esse pavor são:


Como vou poder ensinar meu filho disciplinas específicas e complexas, como física e química?”


Não terei tempo para fazer todas as minhas tarefas e, ainda, passar todo o conteúdo que uma escola passaria!”


Não vou conseguir ensinar muita coisa para os meus filhos, pois nunca fiz faculdade”


Quero ensinar meus filhos em casa, mas tenho medo deles ficarem 'pra trás', não aprendendo tanto quanto as crianças que estudam na escola”


Se houvesse material didático específico para Educação Domiciliar daria tudo certo, mas como posso ensinar minhas crianças se não há material no Brasil?”


Tenho medo que meu filho não consiga entrar numa faculdade ou arranjar um emprego por ter sido ensinado em casa”


Você já teve algum desses pensamentos? Creio que a maioria já teve...
É normal ter esse tipo de sentimento pois todos nós que não fomos ensinados em casa possuímos uma “mente escolarizada”. Não vou debater aqui se isso é bom ou ruim, mas o fato é que o único modelo educacional e o único currículo aos quais fomos expostos foram os escolares. Por conta disso, sempre que pensamos em instrução formal, remetemos à única referência que existe em nossos cérebros: a escola.
Um dos fatos mais simples e puros com relação à educação é que o modelo escolar simplesmente não se encaixa com a Educação Domiciliar. É total e completamente impossível se “transplantar” pedaços da educação escolar para a domiciliar. Simplesmente não funciona!!!
A forma como a instrução ocorre em uma instituição escolar foi concebida tendo como base o contexto e os objetivos dessa instituição. Uma vez que o contexto da Educação Domiciliar é completamente diferente, torna-se incoerente e, por que não, inviável a utilização de currículos, materiais e conteúdos escolares em sua plenitude – alguns desses elementos podem ser utilizados em partes, mas nunca na íntegra.
Por conta disso, volto a afirmar: mais do que as crianças, são os pais que mais precisam ser desescolarizados.
São os pais que precisam ser reeducados para que percebam que não precisam reproduzir em casa toda a metodologia da escola, abrangendo todo o seu conteúdo e suas atividades. Com efeito, a Educação Domiciliar não é (e não pode ser) uma escola cujas aulas acontecem em casa! A diferença entre a educação escolar e a domiciliar não se restringe ao locus educacional, mas abrange as esferas ideológica, filosófica, metodológica, pedagógica, psico-afetiva e tantas outras!
Pais, se querem um bom conselho, este é o que lhes ofereço: desescolarizem suas mentes! Não tentem mimetizar em suas casas o ambiente escolar. Ao invés disso, construam em seus lares um ambiente de aprendizagem (falaremos mais sobre isso em outro artigo).
Afinal, se tentarmos competir com a escola, iremos cometer os mesmos erros que ela.
Para encerrar, gostaria de deixar minhas respostas particulares para os pensamentos que podem surgir decorrentes da Síndrome do Pavor Curricular Súbito:


Como vou poder ensinar meu filho disciplinas específicas e complexas, como física e química?”
Resposta: Lembre-se que uma das grandes vantagens da Educação Domiciliar é, justamente, desenvolver o autodidatismo. Com o passar do tempo seus filhos estarão aptos a pesquisar sozinhos sobre esses conteúdos mais densos e específicos. Além disso, essas disciplinas tendem a se tornar complexas na adolescência, o que lhe dá um bom tempo para pesquisar e aprender mais sobre isso. Por fim, mesmo que você não tenha um conhecimento total sobre alguns conteúdos, será uma boa oportunidade para você e seus filhos pesquisarem juntos – o que é ideal para um ambiente em que o aprendizado faz parte do dia-a-dia de TODA a família.


Não terei tempo para fazer todas as minhas tarefas e, ainda, passar todo o conteúdo que uma escola passaria”
Resposta: Você não precisa ter uma carga horária diária equivalente à escola. Uma vez que você aproveita situações do dia-a-dia para ensinar e orientar suas crianças, o tempo dedicado para uma instrução mais individual e direciona pode ser bem menor. Além disso, você pode orientar seus filhos enquanto faz o almoço, limpa a casa, etc. E lembre-se: muita coisa eles podem (e devem) fazer sozinhos.


Não vou conseguir ensinar muita coisa para os meus filhos, pois nunca fiz faculdade”
Resposta: Em primeiro lugar, ter uma graduação não garante que alguém consiga ensinar bem. Em segundo lugar, fazer uma faculdade permite que uma pessoa receba muita informação sobre uma área profissional específica em detrimento de outras. Dessa forma, um contador pode ter facilidade com matemática, mas, como irá ensinar ciências ou geografia? Em terceiro lugar, como já falei anteriormente, você não precisa saber tudo, mas deve ter dedicação em estudar para aprender mais também – lembre-se sempre do ambiente de aprendizado que sua casa deve ser.


Quero ensinar meus filhos em casa, mas tenho medo deles ficarem 'pra trás', não aprendendo tanto quanto as crianças que estudam na escola”
Resposta: O primeiro erro aqui é achar que o currículo da escola é mais completo. Na verdade, o volume de conteúdo na educação escolar, sem dúvida, será maior do que o do ensino doméstico. Entretanto, volume de conteúdo não é sinônimo de desenvolvimento de competências/habilidades. Você pode muito bem ensinar seus filhos em casa com menos conteúdos e, mesmo assim, desenvolver neles as competências e habilidades necessárias para que tenham uma vida plena. Neste sentido, também tenho que dizer que a atitude pesquisadora e a naturalização do aprendizado proporcionadas pela Educação Domiciliar fazem com que os alunos domiciliares estejam aptos a concorrer com qualquer outro jovem ensinado na escola sem problema algum. De fato, as estatísticas mostram que, mesmo com menor volume de conteúdo, os alunos domiciliares tendem a ter vantagem nessa “competição”.


Se houvesse material didático específico para Educação Domiciliar daria tudo certo, mas como posso ensinar minhas crianças se não há material no Brasil?”
Resposta: Ter um material didático específico para a Educação Domiciliar realmente facilita consideravelmente o trabalho de se ensinar em casa. Porém, não devemos supervalorizar essa ferramenta de ensino. Na Educação Domiciliar é plenamente possível (e totalmente saudável) adaptar materiais destinados a outras modalidades educacionais. Na realidade, qualquer material pode ser utilizado de forma satisfatória desde que os pais façam isso de forma planejada, avaliando as melhores opções e realizando as adaptações necessárias. Além disso, sempre há a possibilidade dos pais buscarem materiais na internet ou, por que não, produzirem seus próprios materiais, exercícios, atividades, etc.


Tenho medo que meu filho não consiga entrar numa faculdade ou arranjar um emprego por ter sido ensinado em casa”
Resposta: Creio que a resposta a este pensamento ficou clara enquanto falávamos sobre as questões anteriores. Somente gostaria de complementar que, como a criança foi educada em um ambiente imerso na aprendizagem, se torna natural para ela estudar por conta própria os conteúdos, incluindo os que forem necessários para qualquer prova, teste, vestibular, etc. E, por fim, creio que não haveria pessoa melhor para preparar um sujeito para o mercado de trabalho do que os próprios pais, que já passaram por inúmeras experiências relativas a isso.
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