terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Práticas de um Lar Aprendiz

Através deste artigo pretendo dar algumas dicas práticas do que você pode fazer para transformar sua casa em um lar aprendiz.
A primeira dica já foi dada no artigo “Um Lar Aprendiz”, e se resume à seguinte frase:

Torne-se um aprendiz
Não vou gastar muito tempo falando sobre isso novamente, mas gostaria de relembrar a conclusão do artigo supracitado: desescolarizem-se e se tornem verdadeiros aprendizes naturais. Isso será maravilhoso para vocês, e determinará o sucesso da Educação Domiciliar de seus filhos.
A segunda dica que ofereço é a seguinte:

Aproveite todos os momentos do dia-a-dia para ensinar
Toda hora é hora de aprender. Se você está cozinhando, limpando a casa, dando banho no cachorro, assistindo TV... Não importa: enquanto realiza essas atividades, ao mesmo tempo, pode estar conversando, orientando, ensinando seus filhos.
Muitos pais se preocupam por não ter tempo para ensinar os filhos devido inúmeras outras atividades que precisam ser feitas em casa. Ora, mas não é justamente esse o espírito do homeschooling: ensinar no quotidiano familiar? Então, aproveite cada momento para fazer isso.
Utilizando um gerundismo justificado, devemos estar ensinando a todo momento. Enquanto estivermos sentados, enquanto estivermos de pé, enquanto caminhamos, enquanto trabalhamos... Seja em casa, em um passeio, em uma visita ou no caminho para esta, todo momento é oportuno para ensinarmos algo intelectual, acadêmico, filosófico, moral, espiritual, ético, emocional, social...
Todo tempo é tempo de aprender!!!
Uma terceira sugestão que lhes dou é a seguinte:

Aproveite os interesses e a curiosidade
Mas, atenção! O que vou descrever a seguir é algo que deve ser feito no quotidiano familiar e não precisa, necessariamente, reger o momento oficial de instrução do aluno domiciliar. Tentar aplicar essa sugestão em sua totalidade ao momento específico de estudo da criança pode causar alguns problemas sérios.
O sentimento que dispara todo o processo natural de aprendizagem é a curiosidade. Tudo, absolutamente tudo o que realmente aprendemos depende de um estado inicial de interesse. Se você não tiver interesse por alum assunto, por mais que estude sobre ele, posso lhe garantir: você não vai aprender. Talvez você decore algumas informações por um curto período, mas não haverá aprendizado real.
Neste sentido, devemos aproveitar ao máximo as demonstrações de curiosidade e/ou interesse de nossos filhos. A curiosidade deles pode (e deve) ser utilizada como o disparador de uma reação educacional em cadeia que levará a muitos outros aprendizados e ao desenvolvimento de inúmeras habilidades/competências.
Quando seu filho lhe fizer uma pergunta, evite simplesmente dar uma resposta pronta, curta e direta. Você até pode informar parte da resposta para saciar a curiosidade momentânea de sua criança, mas, além disso, busque utilizar essa dúvida/curiosidade para criar projetos e atividades (individuais ou coletivas) através das quais o aprendizado relativo a esse tema possa ocorrer de forma mais ampla.
Não encare uma pergunta meramente como uma pergunta, mas como um potencial primeiro passo de uma longa caminhada que atravessará toda sorte de conhecimentos e experiências valiosas para o seu lar aprendiz.
Vejamos alguns exemplos de perguntas que as crianças podem fazer e que poderiam muito bem gerar uma grande quantidade de atividades educativas:

  1. O que o presidente faz?
  2. Por que a gente não enxerga o ar?
  3. Como é que o avião voa se ele é tão pesado?
  4. Por que aqui não neva igual no desenho animado?
  5. O que é “Estados Unidos”?
  6. O que o senhor faz no trabalho? Por que tem que ficar fora o dia todo?
  7. De onde vem o leite?

É claro que essas perguntas são somente uma amostra mínima do que pode surgir em sua casa – afinal, as crianças são uma fonte sem fim de criatividade e curiosidade. Vocês que têm filhos podem testemunhar muito melhor do que eu como algumas questões levantadas pelos pequeninos são espantosamente engenhosas e inesperadas – e é justamente essa fertilidade das perguntas produzidas pela mente extremamente plástica das crianças que aumenta infinitamente o potencial educativo do processo pelo qual a dúvida será sanada.
Para dar um exemplo de como você pode trabalhar essas perguntas, utilizemos a questão 7: “De onde vem o leite?”. Essa é uma pergunta que eu mesmo já fiz quando criança – lembro-me muito bem disso, e que a próxima pergunta foi: “Onde fica a fábrica de ovos?”. Mas, memórias à parte, essa é uma pergunta que pode gerar um processo educativo muito mais extenso e amplo do que podemos imaginar...
Primeiramente, você poderá propôr uma pesquisa em livros/sites que expliquem como o leite é formado. Pode ser uma pesquisa individual da criança, ou você pode pesquisar junto com ela – esta última sugestão é ideal caso você mesmo não tenha certeza de como se dá esse processo.
A partir dessa pesquisa, você pode focalizar no estudo dos mamíferos (biologia), ou da produção agrícola de leite (geografia). No caso da produção agrícola, você pode trabalhar a questão do custo de compra e venda do leite (matemática) e, até, de seu desenvolvimento através dos tempos (história). Durante todo esse processo, você poderá propor atividades que envolvam escrita, leitura, produção artística, oratória, encenação, etc. Enfim, todas as disciplinas poderão, em níveis diferentes, ser envolvidas no processo de responder àquela simples pergunta que disparou a reação educacional em cadeia.
É muito provável que essas atividades despertem a curiosidade/interesse de seus filhos por outras coisas, tais como: animais, vegetais, ambiente agrícola (fazendas), modos de produção, etc. E isso é excelente, pois lhe proporcionará um leque imenso de outros temas que poderão ser trabalhados juntamente com outras atividades, permitindo o aprendizado de outras informações e o desenvolvimento de outras habilidades/competências.
Na verdade, partindo de interesses de seus filhos e tendo em mente os conhecimentos que ele precisa adquirir, facilmente você conseguirá conteúdo para trabalhar meses!
Entretanto, preciso voltar ao alerta que fiz no início deste tópico: partir do interesse da criança, apesar de ser extremamente necessário, não poderá ser aplicado em sua totalidade no momento específico e oficial de estudos diários do aluno domiciliar. O quotidiano é muito rico ao nos apresentar possibilidades de aprendizado. Entretanto, ao contrário do que muitos defendem, não creio que tudo o que um sujeito precisa aprender irá surgir naturalmente em seu dia-a-dia. Muitos conhecimentos precisarão ser introduzidos de forma intencional pelos pais, da mesma forma que muitas habilidades/competências precisarão ser ensinadas independentemente do que for se apresentando de forma espontânea na vida da criança.
Obviamente, podemos aproveitar alguns interesses e curiosidades do filho-aluno para escolher temas a serem trabalhados no momento oficial de estudo – isso será possível muitas vezes! Mas, mesmo assim, defendo a tese de que nem sempre haverá conciliação entre o interesse da criança e sua necessidade de aprendizado.
Quando falo em aproveitar os interesses da criança, me refiro muito mais ao dia-a-dia, aos projetos “extracurriculares” que serão realizados paralelamente ao estudo “formal” do aluno domiciliar.
Agora, com certeza, alguns devem estar se perguntando: “Mas, se só aprendemos quando temos interesse em algo, como uma criança irá aprender no momento oficial se não estivermos partindo de sua curiosidade ou interesse por algo? Você não está se contradizendo?”. De forma alguma... Explico: o que afirmei é que nem sempre poderemos ter como ponto de partida um interesse previamente existente na criança. Entretanto, nesses casos, devemos estimular o interesse do aluno domiciliar por um tema intencionalmente proposto por nós. E é neste sentido que vem minha última dica:

Crie situações de interesse
É necessário que vocês, pais, visualizem o que seus filhos precisam aprender em termos de informação e habilidades/competências e produzam situações nas quais os alunos domiciliares tenham contato e, de alguma forma, se interessem pelos conteúdos que lhes são necessários.
Isso pode ser feito através de leituras direcionadas, vídeos educativos, visitas a mostras e exposições, conversas, etc.
Sempre que possível, devemos estimular a curiosidade e o interesse de nossos filhos por aquilo que lhes é necessário mas que, por algum motivo, não tem surgido naturalmente.
Durante sua vida, a criança irá se deparar inúmeras vezes com atividades que lhe serão impostas como obrigação sem, contudo, haver qualquer interesse de sua parte para com isso. Nesses momentos, o sujeito precisará ser capaz de descobrir algo interessante no que lhe foi imposto – afinal, somente assim fará um trabalho bem feito. E é por conta disso que se torna imperativo educarmos nossas crianças para que possam ver “algo” interessante até mesmo em temas e/ou conteúdos que não sejam naturalmente de seu interesse.
Não estou falando em obrigar a criança a aprender o que não quer, mas de levar o sujeitinho a perceber que há algo de interessante em tudo – a diferença está em como olhamos para essa “coisa”.
E essa é uma lição que, talvez, todos nós tenhamos que aprender primeiro...
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