terça-feira, 19 de julho de 2011

A Sofisticada Educação Atrasada dos Povos Tribais

Nós, ocidentais pós-modernos, temos a tendência de sempre olhara para o novo com bons olhos. Uma nova descoberta da medicina nos dá esperança; uma nova tecnologia nos anima; uma nova moda nos atrai; uma nova história nos fascina... Por conta disso, estamos sempre atrás do novo, do melhorado, do atualizado, do renovado, do criado, do descoberto...
Em contrapartida, nossa inclinação natural (ou seria social?) é desdenhar o que é antigo, velho, ultrapassado, etc... Neste sentido, vivemos conforme o dizer: “Fora com o velho; viva o novo!”.
Ao tratarmos de educação, o quadro é o mesmo: queremos novos métodos, novos materiais, novas estratégias, novas abordagens, novos conhecimentos e novas formas de instruir as crianças. Entretanto, se você é adepto da Educação Domiciliar, sinto em lhe dizer que esse pensamento vai, justamente, na contramão do que significa ensinar os filhos em casa... Com efeito, alguém que deseja ensinar os filhos em casa precisará, necessariamente, ter uma visão retrógrada da educação.
Com certeza, essa afirmação deve ter incomodado a maioria de vocês, mas preciso continuar...
Para explicar melhor o que estou tentando dizer, vou usar um exemplo prático: os povos tribais. Em geral, os ocidentais pós-modernos tendem a ver culturas tribais como atrasadas e precárias. Vemos com maus olhos a falta de higiene, precariedade da medicina, limitação da alimentação, tosquice das habitações e, claro, o atraso cultural e educacional desses povos. Muitas vezes, tendemos a ter pena dessas pessoas e pensamos: “Coitados... Esses povos não têm as mesmas oportunidades que nós de receber uma boa educação... Se eles não saírem de suas tribos para ir a uma escola ou fazer uma faculdade estarão fadados a morrer em sua ignorância...”.
Com essas ou outras palavras, creio que a maioria de nós já teve esse sentimento de pena. Entretanto, são os povos tribais que deveriam olhar com muita pena para nós e nossa “educação sofisticada”.
Façamos uma rápida comparação entre as educações antagônicas as quais nos referimos:
Em nossa educação “sofisticada”, as crianças precisam aprender uma quantidade absurda de informações que nunca aproveitarão para nada, enquanto não são instruídas em questões básicas que se farão necessárias todos os dias de sua vida. Já na educação “atrasada” dos povos tribais, a educação das crianças é baseada totalmente nos conhecimentos, habilidades e competências fundamentais que o sujeito irá precisar para sua vida.
Na cidade, em geral, quem ensina as crianças é um profissional formado que não possui qualquer ligação direta com o educando. Na tribo, a família é responsável integralmente pela formação de seus filhos.
Os “civilizados” avaliam a quantidade de informação decorada e congratulam as crianças que mais rapidamente memorizam esses dados, podendo recitá-los quando requisitado. Em contrapartida, os “primitivos” avaliam o amadurecimento cognitivo, emocional, familiar, social, físico e moral, exaltando as pessoas que usam na prática o que aprenderam para o bem-estar da sua família e de toda a sociedade ao seu redor.
No “nosso mundo”, os intelectuais possuem grandes bibliotecas cheias de informações para quando precisarem pesquisar. No “mundo deles”, cada pessoa madura é uma biblioteca cheia de sabedoria e conhecimento.
Enfim, poderíamos passar dias contrastando a educação ocidental pós-moderna e a educação tribal, mas isso não se faz necessário. Creio que os poucos pontos apresentados até o momento são suficientes para demonstrar que, sem sombra de dúvida, a educação tribal é superior à educação (dita) civilizada.
Com isso estou sugerindo que todos deixemos nossas casas e nos mudemos para uma tribo a fim de instruir nossos filhos de forma adequada? Não! Caso alguém sinta-se impelido a fazer isso, pode fazê-lo, mas meu intento não é incentivar um êxodo urbano...
O que pretendo com este artigo é provocar uma reflexão sobre o paradigma da validação do novo pelo novo. Precisamos destruir a ideia de que algo é bom só porque é novo e de que o novo, necessariamente, é superior ao antigo! Algo novo pode ser bom, mas somente o será se apresentar uma justificativa para tanto. Há um sem número de coisas consideradas “atrasadas” que, na verdade, são infinitamente superiores às modernas.
Poderíamos listar uma infinidade de elementos que, mesmo antigos, são superiores, mas, foquemos na educação...
A educação tribal é superior porque ocorre de forma lógica e natural. A educação moderna é inferior porque, ao invés de seguir o curso natural, é estribada na tentativa constante de “descobrir” novas formas de levar a instrução a níveis cada vez mais próximos de um ideal que ainda não foi descoberto. É como se a “educação ideal” estivesse em algum lugar desconhecido e precisássemos criar novas teorias, novos métodos, novas filosofias educacionais para chegar mais perto dessa instrução máxima.
Com efeito, esse pensamento está errado!
É claro que devemos ser progressistas com relação à formação pessoal de cada sujeito, mas, em termos de configuração do modelo educacional, não precisamos inventar a roda de novo...
Ao contrário do que muitos podem pensar, a Educação Domiciliar não é um movimento “novo”, e muito menos revolucionário. Ao contrário, é o resgate de um modelo que sempre existiu – mesmo antes da invenção da escola.
A educação tribal é um grande tesouro, pois nos mostra como a instrução das crianças sempre deveria ter sido: baseada no desenvolvimento fundamental para a vida em sociedade e mantendo-se sob responsabilidade total da família em todos os aspectos (cognitivo, emocional, físico, espiritual e sócio-afetivo).
Se você está ensinando seus filhos em casa ou pretende fazê-lo, paute-se nisso.
Note: não estou dizendo que tudo o que vem da modernidade ou pós-modernidade é ruim, está errado e deve ser erradicado da educação de nossos filhos... Não! Há muitas teorias, descobertas, materiais, métodos e outras ferramentas muito úteis para instruirmos nossas crianças. Entretanto, esses elementos são ferramentas, e não determinantes do processo.
Use tudo o que puder para qualificar a instrução de seus filhos: psicologia, pedagogia, tecnologia, etc... Mas, nunca permita que essas descobertas tirem o foco do que realmente é importante para educar uma criança em casa: o amor e a responsabilidade familiar em ajudar a criança em seu desenvolvimento global.
É exatamente isso que vemos nos povos tribais: uma responsabilidade pessoal e coletiva na formação de sujeitos maduros e úteis para a sociedade.
É absurdo acharmos que, ao esquecer esses princípios, nos tornamos mais “civilizados”...
Podemos, até, considerar a falta de higiene, precariedade da medicina, limitação da alimentação e tosquice das habitações como itens negativos de um povo tribal. Entretanto, não podemos ter a audácia de afirmar que sua educação é inferior à nossa. Pode ser que lhes falte volume de informação, mas não falta qualidade de educação.
Se você quer ensinar em casa, pelo menos no aspecto dos paradigmas educacionais, seja mais tribal e menos civilizado.
Para encerrar, deixo o seguinte provérbio africano para reflexão:


Quando um homem (tribal) morre, é como se uma biblioteca inteira se incendiasse”
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