segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Cuidados na Ed. Domiciliar - Exposição

O medo de muitos pais é ser denunciado por ensinar os filhos em casa, e esta semana vamos falar um pouco sobre isso. No mês de julho escrevi um artigo sobre essa temática, intitulado “Como não ser denunciado por ensinar em casa”, e sugiro que você leia ele antes de continuar com o post desta semana.
No texto de julho trabalhei vários aspectos que deveriam ser observados. Hoje, entretanto, gostaria de abordar algo diferente: a necessidade de trabalhar com a criança para que ela mesma não exponha sua situação a outrem.
Como vocês devem saber melhor do que eu, a maioria das crianças é muito espontânea e, por isso, acaba relatando às pessoas mais do que deveria. Creio que cada pai poderia descrever inúmeras situações engraçadas e/ou constrangedoras pelas quais passou por conta da espontaneidade de seus filhos. Entretanto, quando se trata de uma situação delicada como a educação domiciliar, essa espontaneidade pode culminar em algo muito mais incômodo do que um mero constrangimento passageiro...
Creio que todos já devam ter percebido que “educação” é, sem dúvida, um dos temas preferidos quando um adulto pretende conversar com uma criança. Basta você encontrar um amigo ou conhecido enquanto faz compras com seu filho para que esse adulto comece a perguntar sobre a educação sistematizada da criança. Algumas das perguntas mais frequentes são:

  • Você já vai pra escola?”
  • Em que ano você está?”
  • Você já saber ler/escrever?”
  • Em qual escola você estuda?”
  • Você gosta da sua professora?”

E qualquer uma dessas questões poderia disparar respostas como: “Eu não vou pra escola”; “Eu estudo em casa”; “Minha professora é minha mãe”, ou algumas mais complicadas ainda, tais como: “Meus pais acham que a escola é muito ruim e nunca vão me mandar pra lá”.
Já ouvi relatos de pais que se encontraram em situações muito delicadas quando seus filhos relataram abertamente a estranhos que não iam à escola, e que eram ensinados pelos próprios pais em casa. Felizmente os pais souberam tratar da situação e não houve problemas maiores, mas, a partir de então, buscaram trabalhar com seus filhos para que os mesmos episódios não se repetissem.
Se uma família pretende manter em sigilo sua opção de educar as crianças fora da escola, se faz necessário um cuidado especial para que o próprio filho-educando não exponha essa situação. Mas, como fazer isso?
A primeira dica prática é evitar que a criança fique muito tempo conversando sozinha com outro adulto. Nos dias de hoje, por conta da violência e atos bárbaros que vemos todos os dias nos noticiários, os pais não deixarem seus filhos sozinhos é uma obrigação, e não um mero cuidado. E esse cuidado deve abranger, também, o cuidado para direcionar as eventuais conversas que um outro adulto possa ter com seu filho.
Você pode sim permitir que um outro adulto converse livremente com seu filho. Entretanto, quando surgir perguntas referentes à “escola”, tente mudar de assunto, ou desconversar. Faça de uma forma natural, dizendo coisas como: “Puxa, mas as crianças aprendem rápido, né? O meu filho está aprendendo a ler super rápido!”. Dessa forma, o foco da conversa mudará para o conteúdo aprendido, deixando de lado o local do aprendizado. Provavelmente, o outro adulto irá mudar sua pergunta para algo assim: “Ah, é? Então você já está aprendendo a ler?”.
Seja criativo, e tente direcionar a conversa para “longe” dos detalhes referentes ao locus da aprendizagem.
A segunda dica é conversar com a criança e explicar a situação de forma clara e aberta. As crianças possuem uma capacidade de compreensão muito maior do que imaginamos, e elas estão aptas a entender quando estão em uma situação delicada que precisa de cuidados. Aí cai um modelo do que pode ser dito:
Filho, preciso pedir um favor. O papai e a mamãe acham que o melhor pra você é estudar aqui em casa, junto com a família, mas existem pessoas que acham isso ruim e podem tentar obrigar a gente a te mandar pra escola. Se isso acontecer, o papai e a mamãe podem ter que pagar muito dinheiro e, talvez, até ir pra cadeia. Então, pra isso não acontecer, essas pessoas não podem ficar sabendo que você estuda aqui em casa, tá bom! Não conta pra ninguém!”
Você pode adaptar isso conforme a idade e a compreensão de seu filho, mas eu garanto que ele vai entender e fará todo o possível para evitar que outras pessoas saibam de sua situação.
Agora, o que fazer se algum adulto fizer uma pergunta direta para a crianças sobre isso e não houver como os pais interferirem? Aí entra a terceira dica: treine respostas programadas com seu filho. Converse com seu filho e treine com ele para que dê respostas genéricas que não sejam mentira, mas que responde às perguntas sem explicitar a educação domiciliar. Vejamos alguns exemplos:

  • Pergunta: Onde você estuda?”
    Resposta:Eu estudo no bairro tal
  • Pergunta: Como é o nome da sua escola?”
    Resposta:Eu não sei o nome... Só sei que estudo no meu bairro”

É claro que não há como prever todas as perguntas que podem ser feitas, nem imaginar o grau de insistência que as pessoas terão ao perguntar sobre isso. Mas é possível preparar as crianças para responder minimamente “despistando” qualquer possível denunciador.
As famílias que têm feito isso me informaram de que tem sido eficiente, e que não passaram por mais situações complexas após aplicarem essas 3 dicas. Entretanto, espero que mais pessoas possam contribuir relatando suas experiências e estratégias pessoais, pois, neste quesito, realmente não há teoria pedagógica que possa nos ajudar.
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