segunda-feira, 12 de julho de 2010

Benefícios da Ed. Domiciliar (Parte II)

Desenvolvimento de Autodidatismo
Uma das maiores vantagens da Educação Domiciliar para a criança enquanto sujeito intelectualmente ativo é o desenvolvimento do autodidatismo.
Autodidatismo se refere à capacidade de uma pessoa estudar de forma sistematizada sem a necessidade de um professor ou preceptor. O sujeito autodidata1 possui a habilidade de guiar seus estudos por si mesmo, em um processo autônomo e automotivado.
Essa qualidade (extremamente almejada nos dias atuais) é desenvolvida pelo aluno domiciliar na medida em que, em seus estudos, vai dependendo cada vez menos de seus pais como mediadores do conhecimento e se empenha mais na compreensão das explicações e na execução das atividades do material didático.
Uma das chaves da educação domiciliar é tratar a aprendizagem como algo comum, natural e que faz parte da vida da criança, e isso contribui imensamente para o desenvolvimento do autodidatismo. Explico: quando um menino aprende a jogar bola, mesmo não compreendendo toda a lógica do esporte, dedica-se ao fazê-lo. Consciente ou não, a criança busca uma melhora constante de seus chutes, sua corrida, seus movimentos com a bola, etc. O prazer e o desejo por essa atividade leva o aparato neural da criança a se especializar nela, gerando uma automotivação que impele o ser a agir nessa direção. Esse processo é verdadeiro, não somente em se tratando de atividades físicas e esportivas, mas para todo e qualquer interesse que venha a surgir durante o desenvolvimento da criança.
Enquanto uma criança está sendo ensinada em casa de forma adequada, o “aprender” se torna parte de sua vida. O homeschooling naturaliza o processo de ensino-aprendizagem a ponto deste ser compreendido pela criança como equivalente aos demais elementos de sua rotina: brincadeiras, tarefas, tempo com os pais, momentos de alimentação, etc. A criança sabe que o momento de estudar é diferente dos demais em sua forma, mas o reconhece (em essência) como uma autêntica parte de sua vida normal. Diante disso, o aprendizado é elevado pela criança à categoria de “coisas minhas”, ou seja, aquilo que é visto pela criança como parte do que ela é.
Se faz necessário ressaltar, também, que a idade do sujeito é um fator determinante no processo descrito... Quanto mais nova for a criança, mais ela precisará de orientações quanto a forma como pode apurar sua habilidade, e mais facilmente ela poderá se desanimar frente a dificuldades e entraves. Dessa forma, o papel do “outro” é imprescindível. Em especial, a família da criança é incumbida de animar o sujeitinho em suas dificuldades e orientá-lo para sanar as falhas que o impedem de progredir. Porém, conforme a criança vai crescendo, a necessidade do “outro” vai diminuindo (apesar de nunca desaparecer por completo). Então, quanto mais velho o sujeito fica, mais automotivação ele vai ganhando, bem como uma maior capacidade de superar suas dificuldades e achar saídas para problemas por si só.
É nesse processo que vemos a criança passando da super-dependência da primeira infância para a interdependência real da fase adulta.
É claro que, num primeiro momento, os pais necessitarão estar quase que constantemente próximos de seus filhos para orientar os momentos de estudo. Os preceptores são necessários para garantir que os horários, locais e formas de estudo sejam respeitados pela criança, bem como para transmitir o conhecimento a ser aprendido e direcionar as atividades a serem realizadas. Porém, esse quadro não deve permanecer assim por muito tempo...
A primeira grande quebra dessa realidade é quando a criança aprende a ler e escrever bem. A partir de então, o aluno domiciliar passa a ler seu material didático sozinho, podendo entender as lições e as atividades que deverá fazer. Entretanto, o papel dos pais-professores ainda é essencial, pois o vocabulário infantil permanece limitado, bem como sua capacidade de interpretação e compreensão do desconhecido.
Enfim, quanto mais velha a criança vai ficando, mais progresso vai tendo no sentido de estudar sozinha. Por esse processo ser naturalizado, seu sistema neural estará plenamente comprometido com o desenvolvimento da automotivação e dos aparatos necessários para superar dificuldades. Em uma escala progressiva, estudar em casa vai levando o sujeito ao ponto de ser efetivamente autodidata. Nesse ponto, os pais ainda possuem seu papel na orientação e cobrança, mas o estudante passa a ser capaz de aprender sozinho, utilizando, não somente os materiais didáticos próprios do homeschooling, mas qualquer outro meio que venha a lhe auxiliar na compreensão dos conhecimentos humanos.
Esse autodidatismo proporcionado e potencializado pela Educação Domiciliar também está diretamente ligado à atitude pesquisadora desenvolvida por esse processo. Uma vez que o sujeito é automotivado a aprender por si, ele desenvolve o desejo, o anseio, a necessidade de pesquisar, de investigar, de inquerir – o que irá culminar com o próximo assunto que trataremos: o desenvolvimento da capacidade de produção intelectual.
1Este termo vem do grego autodídaktos (“auto” = por si mesmo; a si mesmo + “didaktos” = aprender).
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