segunda-feira, 10 de maio de 2010

Experiências práticas

Análise do universo pesquisado
Para uma melhor compreensão das análises realizadas posteriormente sobre as práticas observadas durante a pesquisa e o referencial teórico utilizado, passa-se a expôr o universo no qual se desenrolou o trabalho de pesquisa que utilizamos como ponto de apoio para as atuais postagens deste blog.
O contexto contemplado pela presente pesquisa diz respeito a uma família que reside no em Santa Catarina e que é formada por quatro indivíduos, a saber: o pai da família, a mãe e dois filhos (um menino com seis anos de idade e uma menina com quatro).
O pai da família também foi ensinado em casa através de um sistema de educação domiciliar estrangeiro (a saber, proveniente dos EUA), recebendo instrução até o equivalente ao segundo grau brasileiro. Nasceu nos EUA, porém passou quase toda sua vida no Brasil, especificamente no Rio Grande do Sul.
A mãe da família pesquisada possui o segundo grau completo pelo sistema convencional de educação (ou seja, escolar) e cursou algumas matérias de bacharelado em missiologia (contudo, não completando o curso). É de descendência italiana, nasceu e se criou no Rio Grande do Sul, sendo filha de agricultores aposentados.
Ambos são fluentes nas línguas portuguesa e inglesa. Já os filhos possuem fluência na língua portuguesa e estão em processo de aquisição da língua inglesa.
Através da observação, o acadêmico-pesquisador constatou, também, que a criança a ser ensinada em casa (filho mas velho), antes de iniciar o processo educativo, já estava familiarizado com as letras do alfabeto, tendo noções básicas da relação grafema-fonema. Entretanto, cabe ressaltar que esse conhecimento se mostrou bastante limitado, sem qualquer demonstração por parte da criança de competências mais elaboradas de leitura e escrita.
Com relação aos conceitos matemáticos, observou-se, também, que a criança em questão já possuía domínio sobre os algarismos e sobre quantidades, apesar de não possuir conhecimentos relativos às operações fundamentais.


Motivos para a escolha da educação domiciliar
Devido à experiência passada do pai da família, bem como a preocupação do mesmo (juntamente com sua esposa) com relação ao tipo de instrução oferecido pelo sistema escolar de educação, optou-se pela modalidade domiciliar de ensino. Entretanto, outras qualidades foram consideradas como determinantes para a referida escolha.
Assim como inúmeros outros adeptos e simpatizantes do homeschooling, os pais pesquisados pontuaram as seguintes características como vantagens desse sistema:


  • melhor acompanhamento do desenvolvimento da criança por parte dos pais;
  • participação mais efetiva dos pais na escolha “do que” e “como” ensinar;
  • maior possibilidade de se trabalhar as aptidões e dificuldades particulares da criança;
  • descontentamento com os resultados do sistema escolar de educação;
  • possibilidade de se adequar o currículo às concepções filosóficas, morais e religiosas da família;
  • avaliar o processo de ensino-aprendizagem de uma forma livre da obrigatoriedade de se expedir classificações (notas);
  • liberdade para se articular o tempo e o espaço dedicados à instrução;
  • adequação à escolha de se alfabetizar as crianças, primeiramente, na língua inglesa;
  • maior desenvolvimento de autonomia intelectual;
  • dentre outros.


Planejamento
Antes do início dos trabalhos docentes, realizamos uma reunião juntamente com os pais-mestres para delinear um planejamento das atividades a serem desenvolvidas durante o período de pesquisa.
Após o diálogo, acordou-se que os conteúdos contemplados durante os momentos de ensino seriam:


  • No tocante à alfabetização, os pais optaram pelo ensino da língua inglesa. Apesar de se pretender alfabetizar o filho-aluno também na língua portuguesa escrita, considerou-se (por experiência própria do pai) ser mais propícia a transição da língua escrita inglesa para a portuguesa do que o processo inverso;
  • Para matemática foi proposto o ensino das operações fundamentais, iniciando pela soma. Isso se faria possível uma vez que a criança em questão já possui domínio suficiente sobre os algarismos e compreensão sobre quantidades;
  • Ainda com relação à matemática se propôs um trabalho com as formas básicas da geometria;
  • Por fim, foi sugerido um trabalho paralelo para o desenvolvimento, tanto da coordenação motora grossa quanto a fina.


Ressalta-se, ainda, que a língua inglesa foi selecionada, não somente para a alfabetização, mas para todo o processo educativo, sendo empregada em todos os momentos de ension-aprendizagem.
Posteriormente, partiu-se para a seleção do material didático a ser utilizado (uma das preocupações principais da mãe da criança a ser ensinada). Diante de várias possibilidades decorrentes de materiais direcionados especificamente para o ensino domiciliar, selecionou-se aqueles que melhor se adequariam ao planejamento proposto. Nenhum material foi escolhido para ser utilizado na íntegra, buscando-se apenas as porções que se mostrassem mais pertinentes ao trabalho proposto.
Optou-se, ainda, por utilizar cadernos de caligrafia e outros materiais direcionados especificamente para o trabalho da coordenação motora. Para tanto, houve acordo que esses elementos não deveriam ser inseridos no período específico de aula, mas sim utilizados como atividades paralelas, podendo ser realizadas pela criança em outros momentos do dia, quando de seu próprio interesse e escolha.
Quanto à divisão de responsabilidades entre os pais, durante o planejamento escolheu-se utilizar o seguinte modelo: o pai, por possuir maior domínio sobre a língua inglesa, seria responsável pela alfabetização, enquanto a mãe se dedicaria ao ensino de matemática.
Durante a primeira semana haveria um acompanhamento pedagógico mais próximo com o fim de analisar os resultados do trabalho, reavaliando o planejamento, procurando a solução para eventuais problemas e sanando dúvidas. Esse apoio pedagógico se manteve durante todo o período de pesquisa e foi requerido, justamente, por não haver uma capacitação própria por parte dos pais para direcionar suas atividades como mestres.
As “aulas” ocorreriam de segunda à sexta-feira, entre as treze e as quinze horas. Na primeira etapa (abrangendo cerca de uma hora) o pai estaria trabalhando com a criança, enquanto a mãe assumiria no restante do tempo.
É importante ressaltar que, apesar do período de ensino apresentado, os pais se comprometeram em utilizar vários momentos do cotidiano da criança para resgatar os conteúdos ensinados, instigando a recordação e a aplicação dos conhecimentos.
A metodologia utilizada para o ensino seguiu os moldes do ensino recebido pelo pai da família enquanto estudante, qual seja: o instrutor apresenta o material didático para o aluno, realizando algumas explicações iniciais e direcionando a criança para realizar suas próprias atividades, acompanhando o processo para eventuais ajustes ou exclarecimentos. Esse modelo parece ser o padrão do ensino domiciliar nos EUA, o que pode ser constatado através das respostas dadas pelos ex-alunos domiciliares pesquisados durante o período de estudos:


Estudávamos por módulos. Eram cinco matérias: Língua (inglesa), ciências, matemática, estudos sociais, e vocabulário. Cada módulo era organizado em etapas onde o aluno praticamente estudava por conta. O professor ou a professora era mais um monitor ou supervisor, pois, não precisava preparar o material (Ex-aluno A).


O Ex-aluno B ressalta, ainda, o papel do pai na instrução como apoio para eventuais dificuldades: “Meu pai relia a parte do livro que eu não estava entendendo e depois me explicava a matéria”.
Apesar de não se determinar um local específico para as “aulas”, através das observações realizadas durante a pesquisa percebeu-se que o ensino ocorreu, na maior parte do tempo, na cozinha (quando dos momentos direcionados pela mãe) e em um pequeno escritório (quando do direcionamento por parte do pai). Entretanto, salienta-se que em determinados momentos, devido a viagens ou visitas, o ambiente de estudo foi transferido para os espaços que haviam disponível.
Essa forma de utilização dos espaços também reflete o exposto pelos ex-alunos domiciliares que responderam a questionário. O Ex-aluno C, por exemplo, afirma que estudava “em casa numa sala reservada para esse propósito e, algumas vezes, na cozinha enquanto minha mãe fazia almoço e outras coisas”.
Se mostra interessante, também, a variação explicitrada pelo Ex-aluno A, que apresenta uma situação na qual há vários alunos domiciliares sendo ensinados ao mesmo tempos:


Havia um espaço separado para estudos. Estudávamos juntos (irmãos e primos) no mesmo local. Cada aluno estava num nível diferente (ano ou grau diferente) e os espaços eram organizados de tal forma que cada aluno tinha o seu próprio espaço. (Ex-aluno A)


Foi possível perceber que, apesar de poucas adaptações, o planejamento proposto foi seguido. Além disso, as observações realizadas demonstram que o processo de ensino-prendizagem em casa tem se enquadrado dentro das expectativas dos pais, uma vez que o filho-educando tem demonstrado um progresso considerável, principalmente em termos de alfabetização.
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