sábado, 25 de janeiro de 2014

Filhos da (Des)Educação: uma droga e um verme


Para mim, um dos maiores problemas da (pseudo)educação moderna é a concepção completamente distorcida de que o ser humano é definido como tal pela sua inteligência.
Não bastasse esse raciocínio, com o perdão da palavra, imoral, há ainda suas “crias”... Uma delas é um parasita que se aloja em nossas mentes fazendo-nos pensar que “inteligência” significa “capacidade intelectual”. Já a outra não é um verme, mas uma droga, um entorpecente que nos faz ter a ilusão de que desenvolvemos nossa capacidade intelectual – e, consequentemente, nossa inteligência – através da mera memorização forçada de dados, informações e conceitos.
Vamos começar a dissecar esses entes nefastos para compreender o que eles fazem e como nos afetam – sim, estou me incluindo e incluindo você também... afinal, ninguém está imune a essa doença macabra...
Em primeiro lugar, precisamos passar por uma desintoxicação e nos livrar do vício da droga chamada “decorebina”. Os efeitos colaterais desse alucinógeno podem variar de pessoa para pessoa, mas, em geral, o usuário tem alucinações nas quais acredita ter aprendido algo por memorizar certas informações. É óbvio que o aprendizado está diretamente ligado à memória e que a memorização possui um papel muito importante na assimilação de conhecimentos. Entretanto, somos (des)educados a acreditar que estamos aprendendo ao decorar as respostas das questões que cairão na prova e que somos inteligentes se conseguimos decorar de 85% a 100% dessas informações.
Não importa se decoramos datas para as provas de História, regras para as de Português ou fórmulas para as de Matemática, Física ou Química... O fato de memorizarmos algo não significa que aprendemos. Em geral, até mesmo a memorização é temporária – ou será que você ainda lembra de todas as informações que decorou para as provas da infância?
Em segundo lugar, também precisamos de um tratamento para nos livrar do verme “Limitadorum inteligencis”. Esse parasita se alimenta de nossa inteligência global, mantendo apenas o intelecto como sua moradia. Dessa forma, acabamos por acreditar que “capacidade intelectual” é sinônimo de “inteligência”. O vermezinho é tão pequeno que, para muitos, passa despercebido, mas é tão poderoso que, para alguns de vocês, até agora minhas afirmações sobre ele não fazem o menor sentido... Talvez você esteja pensando: “Mas é claro que intelecto e inteligência são a mesma coisa...”. Se esse é o caso, sinto muito em dizer: você está com um pensamento bastante equivocado... Crer que a inteligência é formada somente pelo intelecto é o mesmo que dizer que o corpo humano é formado somente pela cabeça.
De forma resumida, a inteligência é a capacidade de compreender e resolver problemas e/ou superar etapas. o intelecto é apenas um aspecto da inteligência, uma vez que é definido como a parte do ser humano que raciocina, analisa, compreende algo.
Na prática é mais ou menos assim: quando encontro algo novo, um problema, um desafio ou uma etapa a ser vencida, em primeira instância meus sentidos detectam esse “algo”; logo em seguida meu intelecto passa a analisar o objeto para identificá-lo, reconhecê-lo, entendê-lo e buscar opções para interagir com ele. E aqui determinamos o limite do intelecto: a resposta para essa interação pode não ser intelectual, mas emocional/afetiva, física/corporal e/ou metafísica/espiritual.
Vejamos um exemplo...
No caso de uma criança se machucar brincando, os pais usam seus intelectos para, rapidamente, identificar o que aconteceu e definir uma estratégia para resolver o problema... Mas, a solução não é intelectual. Papai e Mamãe precisam cuidar, em primeiro lugar, do coração da criança, fazendo ela se sentir segura, protegida e amada. Isso pode ser feito através de um abraço, carinhos, palavras afáveis, etc. Em segundo lugar, o machucado precisa ser sarado através de ações físicas – mas sem sessar o cuidado com os sentimentos da criança. O intelecto está ali, sem dúvida, mas não está sozinho...
Uma pessoa que sabe lidar com os outros em nível emocional é muito inteligente, mesmo que não tenha desenvolvido grande capacidade intelectual. O mesmo pode ser dito de um artista que pinta com destreza, um esportista que usa seu corpo de forma espetacular, um comunicador que cativa o público, etc.
Enfim, a inteligência é muito mais colorida do que se imagina.
E, por último, deixo a primeira questão: o ser humano é definido como tal pela sua inteligência? Espero que você chegue a uma conclusão pessoal sobre isso, mas, para mim, a resposta é um estrondoso NÃO!!!
Como disse, considero que a inteligência é a capacidade de compreender e resolver problemas e/ou superar etapas. É muito importante desenvolver nossa inteligência – em todos os aspectos. Porém, não é isso que nos define como humanos, e muito menos o que define nosso valor como tais. O valor de alguém está em sua identidade essencial. A pergunta que você deve fazer a si mesmo é: “Quem sou eu?”. A resposta não pode ser nada sobre “o que eu faço” ou “o que dizem sobre mim”, mas deve ser algo muito mais profundo... algo que vem do seu ser mais íntimo sobre “quem você realmente é”.
Se queremos educar de verdade, mais do que valorizar o intelecto ou obrigar as crianças a decorar informações, precisamos levá-las em uma aventura: a aventura de descobrir quem são elas e, ao mesmo tempo, quem são os outros.
Mas, como sempre, isso precisa começar por nós educadores – se é que podemos ser chamados assim. Nós precisamos começar essa jornada e, então, convidar as crianças a nos acompanhar. O problema é que a “aventura” foi (des)educada em nós também... Para muitos de nós, talvez seja mais confortável apenas continuar memorizando as respostas dos livros para alguma prova...

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